Em um cenário marcado pelo aumento das emergências em saúde pública, pelas mudanças climáticas e pela intensificação da mobilidade global, a vigilância epidemiológica depende cada vez mais da cooperação entre países e do compartilhamento de informações em tempo real. Esse foi o foco do quinto dia do Radar Saúde, o Treinamento em Vigilância e Saúde Pública para Jornalistas, organizado pelo ITpS, que aconteceu em 9 de junho. O tema "Vírus sem fronteiras: vigilância global e ameaças no Brasil" foi ministrado pelo pesquisador em saúde pública da Fiocruz, Felipe Naveca, e pela secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde, Mariângela Simão.
Naveca apresentou os principais sistemas internacionais de vigilância de vírus e explicou como redes colaborativas permitem identificar, monitorar e responder rapidamente a ameaças emergentes. Entre os exemplos, destacou o Sistema Global de Vigilância e Resposta à Influenza (GISRS), a mais antiga rede de vigilância do mundo, responsável por subsidiar a definição anual da composição das vacinas contra a gripe nos hemisférios Norte e Sul. Também abordou iniciativas como a i-MCM-Net, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), além de compartilhar experiências de cooperação regional voltadas à detecção de vírus emergentes, como o Oropouche.
Ao apresentar os painéis de monitoramento do Ministério da Saúde, Naveca destacou o comportamento das arboviroses no Brasil. Segundo ele, 2024 foi um ano fora da curva, com recordes de casos de dengue, expansão do vírus Oropouche e elevada circulação de chikungunya. O pesquisador também explicou como são realizados os processos de vigilância, os critérios clínico-epidemiológicos utilizados para confirmação de casos e a importância do monitoramento da fase aguda da dengue.
Outro ponto abordado foi o papel dos primatas não humanos como sentinelas na identificação precoce de doenças, especialmente a febre amarela. "Esses animais não transmitem a doença para as pessoas e ainda ajudam as autoridades sanitárias a entender o que está circulando em determinada região", destacou. O pesquisador ainda explicou que mutações fazem parte da evolução natural dos vírus e alertou para os impactos das mudanças climáticas sobre a dinâmica das doenças transmitidas por vetores.
Da vigilância à governança global em saúde
A segunda aula do dia foi conduzida por Mariângela Simão, que ampliou a discussão para o cenário internacional e destacou que o número e a escala das emergências em saúde pública têm aumentado em todo o mundo. Para ela, a pandemia de covid-19 expôs fragilidades profundas nos sistemas de saúde e na cooperação internacional. "Quando começou a pandemia do HIV, todo mundo conheceu alguém que morreu por conta do vírus. E agora todo mundo conhece alguém que morreu com covid-19", afirmou.
A secretária chamou atenção para o papel da desinformação na redução da confiança pública na ciência e nas vacinas, ressaltando que esse fenômeno contribui para a reemergência de doenças que já estavam controladas, como o sarampo. Nesse contexto, reforçou a importância de jornalistas e comunicadores buscarem informações baseadas em evidências científicas.
Mariângela também discutiu os desafios atuais da governança global em saúde. Segundo ela, embora a Agenda 2030 reconheça a cooperação internacional como elemento fundamental para o desenvolvimento sustentável, a fragmentação da governança global dificulta a coordenação de respostas e o acesso equitativo a vacinas, medicamentos e outras tecnologias de saúde. Como exemplo, relembrou a pandemia de influenza H1N1, quando muitos países em desenvolvimento receberam vacinas apenas após o período mais crítico da emergência em saúde pública, evidenciando o cenário de desigualdade.
A palestra também abordou instrumentos internacionais voltados à preparação para futuras pandemias, como o Regulamento Sanitário Internacional (RSI), o Tratado de Pandemias da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o mecanismo de Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (PABS), atualmente coordenado pelo Brasil. Para a secretária, fortalecer o multilateralismo é essencial no enfrentamento de ameaças que ultrapassam fronteiras nacionais. "Precisamos trabalhar com outros países e o sistema multilateral é essencial nisso", destacou.
As mudanças climáticas apareceram como um dos principais desafios para a saúde pública nas próximas décadas. Mariângela complementou a fala anterior de Naveca sobre as dificuldades enfrentadas em 2024 com as arboviroses, informando que foi o ano mais quente já registrado nos últimos 175 anos de observações e alertou para os impactos do fenômeno El Niño sobre a ocorrência de doenças.
"As mudanças climáticas já são uma emergência em saúde pública", afirmou. Entre as iniciativas em andamento para ampliar a capacidade de resposta do país, ela destacou o AdaptaSUS, plano nacional de adaptação do setor de saúde às mudanças climáticas.
Ao final, a aula reforçou que a preparação para futuras emergências depende de sistemas de vigilância robustos, cooperação internacional e capacidade de adaptação diante de um cenário global cada vez mais complexo. Como resumiu Mariângela, as ameaças à saúde pública exigem respostas coordenadas porque, em um mundo interconectado, a segurança sanitária de cada país está diretamente ligada à segurança de todos.
Na próxima terça-feira, 16, o treinamento terá sua última aula com o médico sanitarista e ex-Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que irá explicar sobre o funcionamento do SUS especificamente em vigilância, assistência e governança tripartite.