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Comunicação
Como ameaças globais se transformam em riscos concretos no Brasil? Radar Saúde debate tema com jornalistas
Notícias do ITpS

Como ameaças globais se transformam em riscos concretos no Brasil? Radar Saúde debate tema com jornalistas

09.06.2026

Em um cenário marcado pelo aumento das emergências em saúde pública, pelas mudanças climáticas e pela intensificação da mobilidade global, a vigilância epidemiológica depende cada vez mais da cooperação entre países e do compartilhamento de informações em tempo real. Esse foi o foco do quinto dia do Radar Saúde, o Treinamento em Vigilância e Saúde Pública para Jornalistas, organizado pelo ITpS, que aconteceu em 9 de junho. O tema "Vírus sem fronteiras: vigilância global e ameaças no Brasil" foi ministrado pelo pesquisador em saúde pública da Fiocruz, Felipe Naveca, e pela secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde, Mariângela Simão.


Naveca apresentou os principais sistemas internacionais de vigilância de vírus e explicou como redes colaborativas permitem identificar, monitorar e responder rapidamente a ameaças emergentes. Entre os exemplos, destacou o Sistema Global de Vigilância e Resposta à Influenza (GISRS), a mais antiga rede de vigilância do mundo, responsável por subsidiar a definição anual da composição das vacinas contra a gripe nos hemisférios Norte e Sul. Também abordou iniciativas como a i-MCM-Net, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), além de compartilhar experiências de cooperação regional voltadas à detecção de vírus emergentes, como o Oropouche.



Ao apresentar os painéis de monitoramento do Ministério da Saúde, Naveca destacou o comportamento das arboviroses no Brasil. Segundo ele, 2024 foi um ano fora da curva, com recordes de casos de dengue, expansão do vírus Oropouche e elevada circulação de chikungunya. O pesquisador também explicou como são realizados os processos de vigilância, os critérios clínico-epidemiológicos utilizados para confirmação de casos e a importância do monitoramento da fase aguda da dengue.


Outro ponto abordado foi o papel dos primatas não humanos como sentinelas na identificação precoce de doenças, especialmente a febre amarela. "Esses animais não transmitem a doença para as pessoas e ainda ajudam as autoridades sanitárias a entender o que está circulando em determinada região", destacou. O pesquisador ainda explicou que mutações fazem parte da evolução natural dos vírus e alertou para os impactos das mudanças climáticas sobre a dinâmica das doenças transmitidas por vetores.


Da vigilância à governança global em saúde


A segunda aula do dia foi conduzida por Mariângela Simão, que ampliou a discussão para o cenário internacional e destacou que o número e a escala das emergências em saúde pública têm aumentado em todo o mundo. Para ela, a pandemia de covid-19 expôs fragilidades profundas nos sistemas de saúde e na cooperação internacional. "Quando começou a pandemia do HIV, todo mundo conheceu alguém que morreu por conta do vírus. E agora todo mundo conhece alguém que morreu com covid-19", afirmou.


A secretária chamou atenção para o papel da desinformação na redução da confiança pública na ciência e nas vacinas, ressaltando que esse fenômeno contribui para a reemergência de doenças que já estavam controladas, como o sarampo. Nesse contexto, reforçou a importância de jornalistas e comunicadores buscarem informações baseadas em evidências científicas.


Mariângela também discutiu os desafios atuais da governança global em saúde. Segundo ela, embora a Agenda 2030 reconheça a cooperação internacional como elemento fundamental para o desenvolvimento sustentável, a fragmentação da governança global dificulta a coordenação de respostas e o acesso equitativo a vacinas, medicamentos e outras tecnologias de saúde. Como exemplo, relembrou a pandemia de influenza H1N1, quando muitos países em desenvolvimento receberam vacinas apenas após o período mais crítico da emergência em saúde pública, evidenciando o cenário de desigualdade.



A palestra também abordou instrumentos internacionais voltados à preparação para futuras pandemias, como o Regulamento Sanitário Internacional (RSI), o Tratado de Pandemias da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o mecanismo de Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (PABS), atualmente coordenado pelo Brasil. Para a secretária, fortalecer o multilateralismo é essencial no enfrentamento de ameaças que ultrapassam fronteiras nacionais. "Precisamos trabalhar com outros países e o sistema multilateral é essencial nisso", destacou.


As mudanças climáticas apareceram como um dos principais desafios para a saúde pública nas próximas décadas. Mariângela complementou a fala anterior de Naveca sobre as dificuldades enfrentadas em 2024 com as arboviroses, informando que foi o ano mais quente já registrado nos últimos 175 anos de observações e alertou para os impactos do fenômeno El Niño sobre a ocorrência de doenças. 


"As mudanças climáticas já são uma emergência em saúde pública", afirmou. Entre as iniciativas em andamento para ampliar a capacidade de resposta do país, ela destacou o AdaptaSUS, plano nacional de adaptação do setor de saúde às mudanças climáticas.


Ao final, a aula reforçou que a preparação para futuras emergências depende de sistemas de vigilância robustos, cooperação internacional e capacidade de adaptação diante de um cenário global cada vez mais complexo. Como resumiu Mariângela, as ameaças à saúde pública exigem respostas coordenadas porque, em um mundo interconectado, a segurança sanitária de cada país está diretamente ligada à segurança de todos.


Na próxima terça-feira, 16, o treinamento terá sua última aula com o médico sanitarista e ex-Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que irá explicar sobre o funcionamento do SUS especificamente em vigilância, assistência e governança tripartite.

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