Começou nesta terça-feira, 12, o 1º Treinamento em Vigilância e Saúde Pública para Jornalistas, promovido pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS). A iniciativa reúne especialistas em saúde pública em encontros online semanais com profissionais da imprensa para discutir temas relacionados à vigilância em saúde, preparação para emergências sanitárias e comunicação de risco.
A abertura foi conduzida por Gerson Penna, diretor-presidente do ITpS, que destacou os aprendizados deixados pelas pandemias das últimas décadas e o papel da imprensa durante a covid-19.
Durante a fala, Penna relembrou o contexto de negacionismo enfrentado e ressaltou a importância da comunicação pública em saúde para orientar a população em momentos de crise. Também defendeu o fortalecimento de políticas de Estado voltadas à preparação e resposta a emergências sanitárias, citando a proposta de criação de um Centro de Prevenção e Controle de Doenças no Brasil.
Na sequência, Bia Reis, gerente de comunicação do Instituto, apresentou o funcionamento do curso e destacou a premiação prevista para reportagens produzidas e publicadas ao longo do programa. Serão selecionadas três matérias avaliadas por uma comissão independente com base em critérios como qualidade jornalística, rigor técnico, uso de dados e evidências científicas, relevância para a saúde pública e clareza na comunicação. Os prêmios serão de R$ 5 mil para o primeiro lugar, R$ 4 mil para o segundo e R$ 3 mil para o terceiro.
A primeira aula foi ministrada por Deisy Ventura, professora de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), com o tema "Saúde pública no século 21: riscos, governança e responsabilidade coletiva".
Deisy chamou atenção para a forma como determinados assuntos são apresentados pela imprensa e os efeitos disso na percepção pública sobre riscos em saúde. Um exemplo apresentado foi a repercussão recente sobre hantavírus no Brasil. Segundo ela, parte da cobertura noticiou a confirmação de casos em meio à repercussão internacional envolvendo o vírus, sem esclarecer que a doença, na verdade, circula no país desde 1993 e que os registros não tinham relação com os casos recentes no navio que saiu da Argentina.
Ao longo da aula, a professora também discutiu a redução de recursos destinados à cooperação internacional e seus impactos em programas de prevenção e controle de doenças. Deisy também destacou a fragilização de estruturas internacionais de resposta a emergências sanitárias, além dos impactos da desinformação e os desafios atuais da governança global em saúde.
A segunda aula do dia foi conduzida por Eduardo Hage, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Vigilância e Saúde da Fiocruz Brasília, com o tema "Preparação para pandemias: o que mudou depois da covid-19?".
Hage apresentou um panorama das emergências em saúde pública no Brasil e no mundo, abordando desde surtos e epidemias até desastres relacionados às mudanças climáticas. Segundo ele, essas emergências aprofundam desigualdades, sobrecarregam os serviços de saúde e exigem sistemas capazes de responder de forma rápida e coordenada.
A apresentação também abordou a estrutura da vigilância em saúde no Brasil, incluindo ações de monitoramento, investigação epidemiológica, comunicação em saúde e articulação entre diferentes setores e níveis de governo. Entre os desafios apontados para futuras emergências sanitárias, Hage destacou a necessidade de ampliar a capacidade de preparação do país, fortalecer a produção de insumos estratégicos, combater a desinformação e aperfeiçoar mecanismos de governança para resposta a crises sanitárias.
O treinamento seguirá nas próximas semanas, em formato online, com a participação de especialistas convidados e jornalistas selecionados para essa primeira edição do programa.