O estudo "Viral metagenomics of synanthropic urban bats: a surveillance strategy for uncovering potentially zoonotic viruses" (Metagenômica viral de morcegos urbanos sinantrópicos: uma estratégia de vigilância para identificar vírus potencialmente zoonóticos, em português) analisou vírus presentes em morcegos encontrados em áreas urbanas e periurbanas do estado de São Paulo. O trabalho utilizou amostras já coletadas pela vigilância da raiva para investigar outros agentes e identificou, entre os achados, um filovírus até então desconhecido – o primeiro encontrado em morcegos nas Américas. A pesquisa, publicada na revista científica One Health, contou com a participação de pesquisadores do Instituto Todos pela Saúde (ITpS).
Métodos
Os pesquisadores analisaram 2.422 morcegos coletados pelo programa de vigilância passiva da raiva no estado de São Paulo. A partir desse conjunto, um algoritmo foi usado para selecionar 150 animais representativos para a análise. Amostras de pulmão e intestino foram submetidas ao sequenciamento metagenômico por nanopore, técnica que permite buscar diferentes vírus presentes no material sem definir previamente qual agente deve ser procurado.
A proposta foi aproveitar uma estrutura de vigilância já existente para ampliar a busca por vírus que circulam em morcegos. Esses animais podem abrigar diferentes famílias virais, algumas das quais incluem agentes capazes de infectar seres humanos e outros animais.
Achados principais
A análise das amostras de pulmão e intestino encontrou 114 fragmentos de material genético viral, pertencentes a 18 famílias. Entre eles, 98 foram associados a 12 famílias consideradas de interesse para a saúde pública, como Arenaviridae, Coronaviridae e Paramyxoviridae.
Um dos principais achados foi a identificação de um filovírus até então desconhecido. Segundo os autores, esta é a primeira detecção de um vírus dessa família em morcegos nas Américas. A família Filoviridae inclui vírus conhecidos, como os causadores de Ebola e Marburg, mas a identificação de um novo integrante da família não significa que ele tenha capacidade de infectar seres humanos ou provocar essas doenças.
O estudo também identificou sequências virais de outros grupos e revelou uma diversidade que não havia sido detectada pelo sistema de vigilância voltado especificamente à raiva. Os resultados mostram que amostras já obtidas pela rotina de vigilância animal podem ser usadas para investigar um conjunto mais amplo de agentes.
Interpretação
Os resultados indicam que programas de vigilância já estabelecidos podem servir de base para ampliar o monitoramento de vírus com potencial de emergência. Em vez de depender exclusivamente de novas coletas de animais, a proposta aproveita amostras e estruturas existentes e acrescenta o sequenciamento metagenômico para investigar diferentes agentes.
O modelo também foi discutido em uma oficina com especialistas de diferentes áreas ligadas ao conceito de Uma Só Saúde, que considera de forma integrada a saúde humana, animal e ambiental. Segundo o estudo, os participantes apontaram a abordagem como uma possibilidade de expansão da vigilância no país, inclusive em contextos com recursos limitados.