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Comunicação
Estudo revela perfil clínico, laboratorial e imunológico da febre do Oropouche e detalha diferenças em relação à dengue
Notícias do ITpS

Estudo revela perfil clínico, laboratorial e imunológico da febre do Oropouche e detalha diferenças em relação à dengue

26.01.2026

Um estudo publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases descreve de forma detalhada o comportamento clínico, laboratorial e neurológico da infecção pelo vírus Oropouche (OROV) e apresenta diferenças em relação à causada pela dengue que podem dar suporte ao diagnóstico clínico. Alerta, também, para as potenciais consequências da doença no sistema nervoso central. Desenvolvido durante o surto da doença em 2024 em Manaus (AM), o trabalho foi conduzido por um grupo de pesquisadores brasileiros e é resultado da Rede de Vigilância em Saúde Ampliada (Revisa), organizada com apoio do Instituto Todos pela Saúde (ITpS).


Os resultados trazem pela primeira vez evidências importantes para diferenciar a febre do Oropouche de outras arboviroses endêmicas, como a dengue. Esse é um desafio constante de profissionais de saúde, especialmente quando as doenças circulam simultaneamente em um mesmo território, como ocorre em várias localidades brasileiras.


O trabalho analisou as informações de 129 pacientes com síndrome febril aguda atendidos entre janeiro e março de 2024, sendo 51 casos de Oropouche e 78 de dengue. Os participantes foram acompanhados por 28 dias, com coleta de dados clínicos, laboratoriais e imunológicos, além do sequenciamento genético de amostras do vírus.


Os pesquisadores constataram que os pacientes infectados por Oropouche apresentaram sintomas mais intensos e característicos do que aqueles com dengue. Foram observadas cefaleia intensa (43%), dor articular (76%), dor retro-orbital (67%), mialgia (20%) e exantema difuso (35%).


Enquanto a febre foi mais frequente entre os casos de dengue (82%), a dor articular e o padrão de rash cutâneo se destacaram como marcadores clínicos do OROV. O estudo também observou casos de artralgia e mialgia (dor nas articulações e nos músculos, respectivamente) persistentes por até quatro semanas, indicando possível prolongamento da resposta inflamatória.


No exame laboratorial, foi identificada uma elevação significativa da enzima hepática ALT (47 U/L em média, contra 27 U/L em casos de dengue), sugerindo leve estresse hepático. Não houve indícios de lesão grave, mas os autores ressaltam a necessidade de monitorar a função hepática em surtos futuros.


"O Oropouche e a dengue compartilham muitos sintomas, mas se comportam de maneira diferente. Compreender esses padrões clínicos e imunológicos é essencial para melhorar o diagnóstico e orientar respostas de saúde pública mais rápidas e precisas", destaca Vanderson Sampaio, diretor de Operação do ITpS. "Outro aspecto importante é o impacto no sistema nervoso central. Como temos um número relativamente pequeno de casos, as evidências são limitadas em termos de saúde pública. O problema é se tivermos um aumento expressivo, como ocorreu com o Zika vírus." 


Dessa forma, marcadores imunológicos, intensidade da dor de cabeça e padrão de erupção cutânea podem se tornar ferramentas auxiliares na diferenciação clínica entre arboviroses, especialmente em regiões com cocirculação viral. 


O sequenciamento genético confirmou a circulação de uma linhagem reordenada do Oropouche, já detectada em anos anteriores, mas com características de maior virulência e replicação, o que pode explicar a intensidade e o alcance do surto de 2024.


No estudo, os cientistas também demonstraram que a combinação de RT-PCR com o teste de neutralização por redução de placas (PRNT) aumentou a sensibilidade diagnóstica em 45%, permitindo identificar casos mesmo em situações de baixa viremia. Essa estratégia de exames diagnósticos deve ser considerada para aprimorar a vigilância e o controle de arboviroses no país.


Resposta imunológica e marcador associado à neuroinflamação


A análise imunológica revelou padrões distintos entre Oropouche e dengue. Durante a fase aguda da infecção por OROV, houve aumento de marcadores como CCL11 (Eotaxina), CXCL10, IFN-γ, IL-1RA e IL-10, que diminuíram até o 28º dia, enquanto o IL-5 apresentou elevação na fase de recuperação.


O destaque do estudo é a primeira descrição do papel do CCL11 (Eotaxina) em uma infecção por arbovírus, associada à neuroinflamação e cefaleia intensa. Esse achado pode explicar a maior frequência de sintomas neurológicos relatados pelos pacientes com Oropouche.


"Compreender o mecanismo da infecção e da doença é o que nos permite avançar para a busca de novas possibilidades de tratamento, diagnóstico e prevenção", diz Maria Paula Mourão, médica pesquisadora da Rede Colaborativa de Vigilância Ampliada e Oportuna (Revisa).


Nos casos de dengue, foram observados aumentos de CCL2, G-CSF e CCL3 na fase de recuperação, além de níveis mais elevados de CXCL10 no 28º dia. 


O estudo demonstra também a importância de fazer a vigilância contínua das diferentes arboviroses em áreas endêmicas, considerando que as doenças causadas por esses vírus podem ser muito semelhantes. "Saber o que está circulando nos permite planejar e implementar medidas de controle mais adequadas, além da possibilidade de antecipar a ocorrência de surtos e fazer com que o sistema de saúde se prepare adequadamente", acrescenta Maria Paula. 


Por conta desses resultados, os pesquisadores recomendam vigilância molecular e genômica contínua e o monitoramento de possíveis desfechos neurológicos de longo prazo.


Sobre a Revisa


A Rede de Vigilância em Saúde Ampliada (Revisa) é uma articulação de centros sentinelas voltados à vigilância de doenças infecciosas com potencial epidêmico, unindo atendimento clínico, exames laboratoriais e capacidade de detecção genômica. Funciona de forma colaborativa, com compartilhamento de protocolos, dados e amostras, promovendo diagnósticos mais rápidos e consistentes. A Revisa tem dois centros sentinelas, em Manaus e no Rio de Janeiro.

Instituto Todos pela Saúde (ITpS) Av. Paulista, 1.938 – 16º andar
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