O Instituto Todos pela Saúde (ITpS) promoveu o simpósio Detecção Precoce de Surtos de Síndrome Febril na 18ª Reunião Nacional de Pesquisa em Malária, realizada de 25 a 28 de abril, em Campos do Jordão (SP). O evento foi moderado pelo diretor de Operações do ITpS, Vanderson Sampaio, e contou com apresentações dos pesquisadores José Deney e Marcelo Bragatte.
Segundo Sampaio, há mais de cem anos o sanitarista Oswaldo Cruz já propunha estratégias de diagnóstico e tratamento para a malária na Amazônia e um século depois pouca coisa mudou. "A inovação é urgente especialmente para as populações historicamente desassistidas. É importante que os gestores de políticas públicas estejam atentos às novas tecnologias", destacou o diretor, ressaltando que o custo-efetividade dessas ferramentas é cada vez mais viável. O desafio ainda é a detecção oportuna, que sofre pelas longas distâncias na região amazônica e pela baixa sensibilidade nas demais regiões.
Vanderson Sampaio / Foto: Camila Gomes | ITpS
No dia 26, em sua apresentação, Deney ilustrou o problema citando sua terra natal, Jutaí (AM), localizada a três dias de barco de Manaus. Ele mostrou como o isolamento geográfico faz com que os sistemas tradicionais de notificação demorem de 28 a até 60 dias para consolidar as informações. Quando os dados chegam aos gestores de saúde, a janela de 14 dias para conter um surto já se fechou.
Para solucionar esse gargalo, Deney apresentou a plataforma Sinapse, uma infraestrutura em desenvolvimento no ITpS que integra dados humanos, animais, climáticos, ambientais e transversais, oriundos das mais variadas fontes, e os consolida em uma plataforma, deixando-os prontos para análises. "Na vigilância, o que move é a pergunta, e nós estamos integrando dados para que essas perguntas sejam respondidas", afirmou o pesquisador.
Deney Araújo palestra / Foto: Camila Gomes | ITpS
Deney apresentou, então, outro projeto em fase final de testes no ITpS, o Detecta Alerta, descrito por ele como mais uma camada para a vigilância, uma forma de monitoramento em tempo real.
O sistema Detecta Alerta capta o aumento repentino da demanda em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), gerando dados que possam indicar busca por atendimento acima do normal. Isso permite ao gestor atuar em tempo oportuno de investigação e observar, por exemplo, síndromes febris muito antes do diagnóstico laboratorial oficial.
Quando o exame dá negativo
Na sequência, o pesquisador Marcelo Bragatte falou sobre como os resultados negativos de exames, comumente descartados pelos laboratórios, podem ser sentinelas para a identificação de novos surtos. Bragatte resumiu a ideia de forma bem-humorada: "Quando o município está com febre, queremos ser capazes de identificá-la".
A ideia é que a combinação entre o aumento de atendimento em postos de saúde e a alta de testes negativos pode revelar que um novo patógeno está adoecendo determinada população. A partir dessa informação, o gestor público pode tomar as ações que julgar necessárias, sempre com o intuito de proteger a população.
Marcelo Bragatte / Foto: Camila Gomes | ITpS
O pesquisador apresentou, então, o Detecta Síndromes, sistema que traz uma nova camada de alertas ao extrair dados dos prontuários eletrônicos e transformá-los em informações, apresentadas por meio de painéis simples e intuitivos, que podem colaborar com os gestores na tomada de decisões.
Bragatte cita que, se o modelo estivesse em operação nos últimos anos, o Brasil teria detectado com antecedência de três a quatro semanas em relação à notificação oficial a primeira onda de covid-19, os surtos recentes de dengue e de febre do Oropouche.
Além de Sampaio, Deney e Bragatte, também acompanharam a reunião de malária o coordenador científico do ITpS, Anderson Britto, os pesquisadores Bárbara Chaves e Filipe Romero; da Comunicação, estiveram presentes a gerente Bia Reis e a analista Camila Gomes.