O Instituto Todos pela Saúde (ITpS) promoveu, no dia 18 de agosto, em Brasília, o simpósio "O desafio do Brasil e do mundo na preparação e resposta às pandemias em meio a iniquidade, desinformação, guerras e o enfraquecimento do multilateralismo", durante o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop). O debate reuniu o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Adriano Massuda; a demógrafa e professora de Harvard Marcia Castro; a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo; e o infectologista Marcus Lacerda, diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial da Saúde (OMS). O evento teve mediação de Mariângela Simão, ex-secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde e atual relatora especial sobre o direito à saúde para a comissão de direitos humanos da ONU.
Foto: Camila Gomes / ITpS
O tema da desinformação, apontado por Mariângela já na abertura da mesa como um dos principais desafios da atualidade, atravessou boa parte da conversa e recebeu contribuições dos quatro convidados. Massuda tratou o fenômeno como uma disputa essencialmente política. Ele lembrou que, há dez anos, campanhas de vacinação atingiam com facilidade 95% do público-alvo. Hoje, o Ministério da Saúde lida rotineiramente com famílias que recusam vacinar filhos e idosos. "A disseminação de desinformação faz parte de uma luta política que está em curso no mundo, no Brasil, na realidade de cada um", afirmou, ponderando que identificar e reagir rapidamente é a primeira linha de defesa.
Marcia reforçou que não há fórmula única para lidar com o problema, porque ele depende do contexto, dos atores envolvidos e de quem se beneficia da desinformação. A demógrafa citou ainda o chamado paradoxo do sucesso da saúde pública – quando uma ação é bem-sucedida e as mortes não ocorrem, alguém sempre dirá que a ameaça nunca existiu – e criticou a ausência de regulação das redes sociais. "Essa lacuna legislativa de monitorar e realmente limitar a circulação de desinformação ainda é muito mal resolvida na grande maioria dos países."
Foto: Camila Gomes / ITpS
Margareth trouxe a perspectiva de quem viveu a linha de frente da comunicação durante a pandemia. Ela relatou ter recomendado diretamente com veículos de comunicação a retirada do ar de vozes "extremamente imprecisas", após descobrir que sua presença em determinado programa fazia o chamado índice de confiabilidade "verticalizar". Defendeu que formar profissionais de saúde capazes de comunicar com clareza, e não apenas dominar tecnicamente seu campo, deveria ser parte essencial da formação acadêmica.
Por fim, Lacerda afirmou que considera a desinformação o maior risco atual à saúde global. "Do ponto de vista global, a desinformação é a grande ameaça do nosso tempo. Nem o aquecimento nem as guerras têm tamanho impacto." O diretor explicou que o problema é hoje "uma das grandes demandas da OMS em Genebra" e fez distinção entre "desinformação", criada deliberadamente para enganar, e "misinformation¨" – conteúdo falso espalhado por quem não age necessariamente de má-fé, mas que, por seu volume, se torna ainda mais decisivo na circulação de boatos. Para ele, existe ainda uma "competição desleal" entre a ciência, que trabalha com incerteza, e a desinformação, que "vem revestida sempre no 100%".
Foto: Camila Gomes / ITpS
Mariângela perguntou aos convidados se os aprendizados da covid-19 foram utilizados para aperfeiçoar os sistemas de saúde ou se continuamos enfrentando as mesmas dificuldades. Para respondê-la, Massuda tratou da recuperação do Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos anos. "Retomamos a capacidade de financiamento, com um incremento de mais de R$100 bilhões. E isso se evidencia no aumento de produção do sistema de saúde, na recuperação de coberturas vacinais e na incorporação de novos imunizantes", afirmou o secretário-executivo, ressalvando que o país demanda uma política de Estado, e não apenas de governo, para preparação e resposta a emergências sanitárias.
Foto: Camila Gomes / ITpS
Se no cenário nacional houve avanços, o panorama internacional continua crítico. Marcia descreveu o recuo científico nos Estados Unidos, com calendários de vacinação infantil sendo alterados, universidades sob ataque e agências como o CDC perdendo capacidade técnica. Para ela, o mundo vive hoje uma ruptura mais profunda do que a observada antes da pandemia de covid-19. "Há necessidade de repensarmos o que é esse conceito de saúde global quando um dos principais atores resolve não ser o ator, mas sim inimigo."
Questionada se o Brasil tem capacidade de detectar precocemente uma nova ameaça pandêmica, Margareth foi direta: "Não, nós ainda não estamos preparados". A médica lembrou que a covid-19 não terminou, pois o vírus circula hoje em caráter endêmico, e citou estimativa de especialistas de que há hoje uma probabilidade de 48% de uma nova pandemia ocorrer nos próximos oito anos, o que exigirá fortalecimento da vigilância e da logística sanitária no país.
No plano internacional, Marcia atualizou a plateia sobre as negociações do Acordo de Pandemias da OMS, aprovado em maio de 2025, mas que ainda depende da aprovação do anexo sobre o Sistema de Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (Pabs) para entrar em vigor. Uma nova rodada de negociações está prevista para setembro, mas o impasse entre países do Sul Global – que pedem regras claras de repartição de benefícios – e as grandes potências – que preferem termos vagos – ainda não foi resolvido. "Quanto mais demorar para se chegar a esse acordo, mais o mundo fica despreparado para poder responder a uma emergência", alertou, lembrando que durante a covid-19 países com 20% da população mundial receberam 75% das vacinas produzidas.
Foto: Camila Gomes / ITpS
Margareth defendeu ainda a criação de uma nova institucionalidade brasileira, apoiada em marcos legais capazes de articular universidades, escolas e autoridades no combate à desinformação e na preparação para emergências – proposta que tem o apoio do ITpS. Massuda concordou com a necessidade de um marco legal e afirmou que o caminho passa, necessariamente, pelo Congresso Nacional.
Ao encerrar o simpósio, Mariângela resumiu o espírito do debate: "A gente tem que esperar pelo melhor sempre e se preparar para o pior". Para a mediadora, o século XXI exige de gestores, cientistas e sociedade a disposição permanente de "aprender, desaprender e aprender" e, também, de conviver com menos certezas do que se gostaria, em um cenário no qual, segundo os quatro especialistas, a próxima ameaça sanitária pode não ser a última surpresa, mas certamente encontrará um mundo, e um Brasil, testados por desafios que vão muito além da ciência.