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Comunicação
Lotação de unidades de saúde pode antecipar surtos em até cinco semanas, aponta estudo
Artigos em revista científica

Lotação de unidades de saúde pode antecipar surtos em até cinco semanas, aponta estudo

22.09.2026

Pesquisadores do Instituto Todos pela Saúde (ITpS) e de instituições parceiras avaliaram se a movimentação em unidades de saúde pode funcionar como um sinal precoce do aumento da circulação de doenças infecciosas. O estudo, liderado por Jose Deney Araújo e Juan Carlo Santos e Silva, contou com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Einstein Hospital Israelita, Universidade Federal de Goiás (UFG), Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, Universidade do Estado do Amazonas (UEA), entre outras instituições.


Publicado na revista científica Communications Medicine, do grupo Nature, o trabalho analisou dados de ocupação de unidades públicas de atendimento de urgência na Região Metropolitana de São Paulo e investigou se aumentos no movimento desses serviços poderiam antecipar ondas de doenças infecciosas antes que elas aparecessem com clareza nos dados laboratoriais de vigilância.


Métodos


Os pesquisadores analisaram dados de ocupação de 17 unidades públicas de atendimento de urgência, distribuídas por sete municípios da Região Metropolitana de São Paulo, entre julho de 2023 e outubro de 2024. As informações de movimentação foram obtidas a partir de dados agregados e anonimizados disponibilizados pelo Google Maps.


Esses registros foram comparados com dados de vigilância laboratorial sobre SARS-CoV-2, influenza A e B, Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e dengue. As informações laboratoriais vieram de diferentes fontes, entre elas uma iniciativa de monitoramento de patógenos coordenada pelo ITpS, além de sistemas públicos de vigilância. Os pesquisadores aplicaram diferentes métodos estatísticos para verificar se alterações na ocupação das unidades estavam relacionadas e se antecediam mudanças na circulação dos patógenos.


Achados principais


O estudo identificou três períodos de aumento expressivo na ocupação das unidades de saúde durante o intervalo analisado. Esses movimentos apresentaram relação temporal com ondas de doenças infecciosas detectadas pelos sistemas de vigilância laboratorial.


O principal achado foi que, em diferentes momentos, o aumento da ocupação das unidades ocorreu antes dos picos registrados nos dados laboratoriais, com uma antecedência que variou de uma a cinco semanas. O sistema de alerta desenvolvido pelos pesquisadores conseguiu detectar as três ondas analisadas desde suas fases iniciais.


O sinal também se mostrou útil diante de diferentes doenças. Em determinado momento, por exemplo, a queda de uma onda de SARS-CoV-2 coincidiu com o aumento da circulação da dengue. Mesmo com essa mudança no agente responsável pela demanda, a ocupação das unidades continuou elevada, mostrando que esse tipo de informação pode funcionar como um indicador mais amplo da pressão provocada por doenças infecciosas sobre os serviços de saúde.


A análise espacial também identificou unidades que continuaram apresentando ocupação elevada mesmo quando a demanda geral já estava diminuindo, indicando que o impacto de uma onda de doenças pode persistir de maneira diferente entre localidades.


Interpretação


Os resultados indicam que informações já produzidas de forma passiva sobre a movimentação em serviços de saúde podem complementar os sistemas tradicionais de vigilância epidemiológica. Isso ocorre porque uma pessoa procura atendimento quando apresenta sintomas, enquanto a confirmação laboratorial e a consolidação desses registros nos sistemas de vigilância podem acontecer posteriormente. Assim, mudanças no movimento das unidades podem oferecer um sinal mais precoce de que algo está acontecendo.


A proposta não é substituir a vigilância laboratorial, mas acrescentar uma nova camada de informação capaz de chamar a atenção para alterações fora do padrão. Uma antecedência de até cinco semanas pode dar mais tempo para que gestores acompanhem a situação, investiguem as causas do aumento da demanda e se preparem para uma possível pressão sobre os serviços. Como os dados utilizados são agregados e anonimizados, os autores também destacam o potencial da estratégia como uma alternativa de baixo custo, escalável e que preserva a privacidade.


Uma observação editorial: acho que esse é um daqueles estudos em que vale muito destacar o "até cinco semanas" já no título. É um resultado concreto, fácil de entender e traduz imediatamente por que esse tipo de dado pode ser útil para a vigilância.

Instituto Todos pela Saúde (ITpS) Av. Paulista, 1.938 – 16º andar
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