Dados genômicos podem ajudar a identificar a introdução de novas linhagens de vírus, reconstruir rotas de disseminação e compreender como um patógeno circula entre diferentes regiões. Mas, para que essas informações apoiem decisões de saúde pública, é preciso definir quais perguntas a vigilância pretende responder e integrar os resultados do sequenciamento a dados epidemiológicos e clínicos.
O tema esteve no centro da mesa-redonda "Vigilância genômica de arbovírus", realizada em 18 de agosto durante o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (Medtrop 2026). A sessão foi coordenada por Anderson Brito, coordenador científico do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), e contou com Nathan Grubaugh, professor de epidemiologia da Yale University, e Karen Machado Gomes, coordenadora-geral dos Laboratórios de Saúde Pública (CGLab) do Ministério da Saúde.
Foto: Camila Gomes / ITpS
Em sua apresentação, Anderson mostrou diferentes situações em que o sequenciamento genômico pode contribuir para a saúde pública. Uma revisão sistemática encomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), da qual ele participa, analisa estudos sobre dengue, chikungunya, Zika, febre amarela e Oropouche para identificar aplicações práticas desses dados. Os resultados deverão apoiar a elaboração de uma diretriz global da OMS para a vigilância genômica de arbovírus prioritários.
Entre os usos identificados estão a detecção de novos sorotipos, genótipos e linhagens; a identificação de eventos de introdução e de rotas de disseminação; a investigação de ciclos de transmissão; e o apoio a decisões relacionadas a vacinação, controle de vetores e emissão de alertas. A análise também considera a integração da genômica à vigilância epidemiológica de rotina.
Casos ocorridos no Brasil ajudam a mostrar essas aplicações. No surto de Oropouche de 2022 a 2024, por exemplo, o sequenciamento de amostras clínicas permitiu identificar uma nova linhagem recombinante associada à epidemia e indicou que ela já circulava de forma silenciosa havia anos. Estudos genômicos também ajudaram a estimar quando o vírus Zika chegou às Américas e a acompanhar a disseminação do vírus da febre amarela durante a epidemia de 2016 e 2017.
Foto: Camila Gomes / ITpS
Para Anderson, uma das questões centrais é orientar a vigilância genômica a partir de casos de uso e perguntas previamente estabelecidas. Dados sobre sinais e sintomas, desfechos clínicos e vacinação, por exemplo, podem ser indispensáveis para determinadas análises, o que reforça a importância da integração entre sistemas. O compartilhamento ágil de sequências genômicas também é necessário para apoiar respostas oportunas a ameaças à saúde pública.
Nathan Grubaugh apresentou uma proposta para aprimorar a classificação das linhagens do vírus da dengue e facilitar sua integração aos sistemas globais de vigilância genômica. A iniciativa busca estabelecer uma linguagem comum para acompanhar a diversidade genética do vírus e apoiar a identificação de linhagens de interesse para a saúde pública.
Foto: Camila Gomes / ITpS
Entre os exemplos apresentados esteve a linhagem DENV-3III_B.3.2, identificada em mais de 20 países até 2024. No Brasil, análises indicam pelo menos 13 introduções independentes desde 2022, a maioria associada ao Caribe.
A terceira apresentação da mesa, conduzida por Karen Machado Gomes, abordou a estruturação da rede nacional de laboratórios para a vigilância genômica de arbovírus no Sistema Único de Saúde (SUS).