O estudo "Inflammatory discoveries two years after acute severe covid-19: a longitudinal biomarker profile assessment in long covid individuals in the Brazilian Amazon" foi conduzido por uma equipe de pesquisadores brasileiros de instituições como o Instituto Todos pela Saúde, a Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, a Universidade do Estado do Amazonas, a Universidade Federal do Amazonas, entre outras. Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Immunology.
Métodos
Os pesquisadores realizaram um acompanhamento de 80 pacientes que haviam sido hospitalizados por covid-19 com quadro clínico severo na Amazônia brasileira. A análise incluiu medidas de citocinas (proteínas que regulam a inflamação) e outros marcadores laboratoriais em vários momentos durante a fase aguda (dias 1, 7 e 14) e, posteriormente, quatro meses e dois anos após a alta hospitalar. Também foram comparados os resultados com 50 indivíduos saudáveis sem histórico de covid-19, utilizados como grupo controle. O estudo avaliou ainda a relação entre doses de vacina contra covid-19 e o aparecimento de sintomas como fadiga ao longo do tempo.
Achados principais
Quatro meses após a hospitalização, mais de 90% dos pacientes apresentaram sintomas compatíveis com covid longa, que persistiram em mais de 60% das pessoas mesmo após dois anos de recuperação. Nos exames laboratoriais, os pesquisadores observaram que algumas proteínas relacionadas à inflamação — como IL-6, IL-8 e IL-10 — estavam elevadas na fase aguda da doença e diminuíram com o tempo. Em contraste, outras — como IL-1β, IL-10 e TNF — aumentaram progressivamente ao longo do acompanhamento, indicando uma resposta inflamatória prolongada em muitos indivíduos. A contagem de neutrófilos e leucócitos diminuiu significativamente ao longo dos dois anos, sugerindo alterações persistentes no sistema imunológico. Entre os marcadores analisados, a contagem de plaquetas se destacou por melhor refletir a persistência de sintomas de covid longa ao longo de todo o período estudado. Além disso, a análise sugeriu que pessoas que haviam recebido quatro doses da vacina apresentaram uma tendência a menos sintomas de fadiga em comparação com as que receberam três doses, especialmente entre os homens, embora essa associação tenha sido moderada.
Interpretação
Os resultados mostram que, embora a ocorrência de sintomas de covid longa tenda a diminuir com o tempo após a fase aguda da doença, uma parcela significativa dos pacientes ainda vivencia manifestações persistentes até dois anos depois da hospitalização. A presença de marcadores inflamatórios elevados ao longo desse período sugere que processos imunológicos prolongados podem contribuir para a persistência dos sintomas. As diferenças observadas entre os perfis de citocinas ao longo do tempo fornecem pistas sobre como a inflamação sustentada pode estar relacionada à cronificação de sintomas, como fadiga e mal-estar geral. A indicação de um possível efeito protetor de uma quarta dose de vacina contra sintomas de fadiga também sinaliza a importância da vacinação continuada no contexto de covid longa. Esses achados reforçam a necessidade de acompanhamento clínico de longo prazo para sobreviventes de covid-19 e ampliam a compreensão sobre os mecanismos biológicos que podem influenciar a recuperação prolongada após a infecção.