A relação entre ciência, comunicação e confiança pública esteve no centro dos debates do quarto dia do Radar Saúde, 2 dejunho treinamento promovido pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS) para jornalistas de diferentes regiões do país, especificete
O encontro reuniu a pneumologista e pesquisadora sênior da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, e a jornalista e pesquisadora em desinformação científica na saúde no Laboratório de Inteligência Artificial da Unicamp, Ana Carolina Monari, para discutir os impactos da desinformação na saúde pública.
Dalcolmo conduziu a primeira apresentação e abordou os desafios da comunicação em saúde em um contexto marcado pela velocidade da circulação de informações e pelos impactos da infodemia.
Ao longo da aula, a pneumologista destacou a importância de construir um diálogo consistente entre a comunidade acadêmica e a sociedade civil, especialmente quando o assunto envolve novos tratamentos, vacinas ou a incorporação de tecnologias ao Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ela, iniciativas de comunicação precisam explicar de forma clara o que está sendo proposto, quais evidências sustentam determinada decisão e quais impactos são esperados para a população.
A pesquisadora também ressaltou o papel das instituições responsáveis pela avaliação de evidências científicas e pela incorporação de novas tecnologias em saúde no Brasil, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Para ela, compreender esses processos é fundamental para uma cobertura jornalística mais qualificada.
Durante a apresentação, Dalcolmo refletiu sobre os efeitos da desinformação em períodos de crises e emergências em saúde pública e relembrou episódios recentes em que informações sem respaldo científico ganharam espaço no debate público. A especialista chamou atenção para o risco da criação de falsas expectativas, da disseminação de tratamentos sem evidências e da circulação de mensagens que exploram o medo coletivo.
Outro ponto abordado foi a importância da linguagem na comunicação em saúde. Segundo a pesquisadora, transmitir informações corretas exige não apenas rigor científico, mas também a capacidade de adaptar a mensagem ao público e contextualizar fatos corretamente.
A desinformação como processo
A segunda aula foi ministrada por Ana Carolina Monari, que apresentou uma análise sobre os mecanismos que sustentam a circulação de conteúdos enganosos no ambiente digital.
Logo no início da apresentação, Monari lançou uma provocação aos participantes: "Desinformação em saúde nunca foi tão sofisticada. E, ao mesmo tempo, nunca houve tantos jornalistas competentes cobrindo o tema. Como as duas coisas podem coexistir?".
A pesquisadora explicou que a desinformação não deve ser entendida apenas como a circulação de conteúdos falsos, mas como um processo estruturado que envolve interesses econômicos, políticos e sociais. Nesse contexto, apresentou o conceito de agnotologia, campo de estudos dedicado a compreender a produção social da ignorância.
Ao longo da aula, ela também discutiu como diferentes estratégias são utilizadas para gerar dúvida sobre evidências científicas consolidadas. Entre os exemplos citados, estiveram ações historicamente associadas à indústria do tabaco, que utilizou campanhas, especialistas e conteúdos aparentemente confiáveis para questionar consensos científicos e retardar medidas regulatórias.
Monari também alertou para a sofisticação crescente dessas estratégias no ambiente digital. Segundo ela, conteúdos desinformativos podem circular por meio de fontes consideradas confiáveis, como press releases, estudos preliminares e declarações de especialistas, tornando ainda mais importante o trabalho de verificação realizado por jornalistas.
"A checagem de fontes e informação nunca foi tão importante como no momento que estamos vivendo agora", afirmou.
Outro tema abordado foi o papel da tecnologia na circulação de conteúdos. Para Monari, plataformas digitais e ferramentas tecnológicas não são neutras e refletem interesses, decisões e modelos de negócio que influenciam a forma como as informações circulam e alcançam diferentes públicos.
A pesquisadora também apresentou resultados de estudos sobre o consumo de desinformação. Segundo ela, muitas pessoas encontram nesses espaços um sentimento de pertencimento e identificação que nem sempre percebem na comunicação institucional ou na cobertura tradicional da mídia. Compreender essa dinâmica, afirmou, é fundamental para construir estratégias mais eficazes de comunicação em saúde.
Ao encerrar sua participação, reforçou que a cobertura jornalística de temas de saúde exige mais do que a divulgação de dados ou resultados de pesquisas. É necessário contextualizar informações, verificar evidências, compreender conflitos de interesse e traduzir conteúdos complexos para diferentes públicos.
O Radar Saúde segue reunindo especialistas e jornalistas para discutir temas relacionados à vigilância, comunicação científica e preparação para emergências em saúde pública.