Como transformar grandes volumes de dados em informações capazes de apoiar decisões em saúde pública? E qual será o papel da inteligência artificial (IA) nesse processo?
Essas foram algumas das questões discutidas na terceira aula do Radar Saúde, treinamento promovido pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS) para jornalistas de todo o país, que aconteceu no dia 26 de maio.
A primeira apresentação foi de Helder Nakaya, pesquisador sênior do Hospital Israelita Albert Einstein e professor em regime parcial da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), que abordou o potencial dos dados em saúde e as transformações trazidas pelo avanço da inteligência artificial.
Durante a aula, Nakaya destacou que o Brasil possui uma das maiores bases públicas de dados em saúde do mundo. Segundo ele, sistemas como o DATASUS reúnem um volume de informações que permite o desenvolvimento de pesquisas, análises e reportagens capazes de gerar conhecimento e apoiar políticas públicas.
Ao discutir o avanço da inteligência artificial, o pesquisador ressaltou que a tecnologia amplia a capacidade de análise de dados, mas não substitui a interpretação humana. Para ele, mesmo com acesso a uma quantidade praticamente ilimitada de informações, sistemas de IA não eliminam a necessidade do olhar crítico de profissionais como médicos, pesquisadores e jornalistas.
Nakaya também apresentou diferentes aplicações da inteligência artificial. Entre elas, a chamada IA preditiva, utilizada para identificar padrões em grandes conjuntos de dados e estimar cenários futuros, e a IA generativa, capaz de produzir novos conteúdos a partir das informações com as quais foi treinada.
Outro tema abordado foi o aprendizado federado, modelo que permite treinar sistemas de inteligência artificial utilizando dados distribuídos em diferentes instituições sem que essas informações precisem ser compartilhadas. Nesse formato, os dados permanecem armazenados de forma segura em hospitais e centros de pesquisa, reduzindo riscos relacionados à privacidade e ao uso de informações sensíveis.
Conectando bases para respostas mais rápidas
Na segunda parte do treinamento, Vanderson Sampaio, diretor de operações do ITpS, discutiu os desafios relacionados ao acesso e à utilização de dados em saúde pública.
Segundo ele, a fragmentação das bases de dados ainda representa um dos principais obstáculos para respostas rápidas a emergências sanitárias. Enquanto informações importantes permanecem distribuídas entre diferentes sistemas e instituições, gestores e profissionais de saúde enfrentam dificuldades para acessar dados acionáveis em tempo oportuno.
A partir desse cenário, Vanderson apresentou o projeto do ITpS chamado Sistema Integrador de Análises e Preparação para Surtos e Epidemias, o Sinapse, uma plataforma que reúne e organiza dados estratégicos de saúde pública. A iniciativa integra informações sobre saúde humana, animal e ambiental até o nível municipal, conectando bases públicas e privadas para centralizar dados estruturados e otimizar processos tecnológicos de forma mais eficiente.
Durante a aula, o especialista também demonstrou formas de acessar bases públicas do Ministério da Saúde, incluindo dados disponibilizados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), e mostrou como ferramentas de inteligência artificial podem auxiliar na análise desses conjuntos de dados.
Entre os exemplos apresentados, Vanderson explicou como jornalistas e gestores podem estruturar fluxos de trabalho com IA para interpretar informações, organizar bases de dados e obter respostas mais precisas a partir de documentos específicos. Também abordou a criação de agentes e versões personalizadas de inteligência artificial treinadas para trabalhar exclusivamente com conjuntos de informações previamente definidos, reduzindo a dependência de fontes externas e aumentando o controle sobre a veracidade das informações para análises mais precisas.
O treinamento segue nas próximas semanas reunindo especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios da saúde pública, da vigilância em saúde e da comunicação baseada em evidências.