O estudo foi conduzido por uma equipe de pesquisadores brasileiros, incluindo membros do Instituto Todos pela Saúde, da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, da Universidade de São Paulo e outras instituições parceiras. Os resultados foram publicados na revista Antimicrobial Stewardship & Healthcare Epidemiology.
Métodos
Os pesquisadores utilizaram registros médicos eletrônicos (EMRs) de pacientes atendidos na cidade de São Caetano do Sul (SP), Brasil, para detectar padrões de doenças em tempo real a partir de termos de queixas relatadas no atendimento. Aplicaram técnicas de análise de texto para identificar episódios relacionados a "febre" como evento sentinela — termo que pode indicar diversas doenças infecciosas — e adicionaram outros termos relacionados a doenças específicas como malária, dengue e Zika no dicionário de análise. A frequência desses termos foi monitorada ao longo do tempo para verificar se padrões de relato clínico antecediam o aumento de casos confirmados pelas fontes oficiais de vigilância.
Achados principais
A análise mostrou que o uso de dados de sintomas relatados diretamente nos prontuários eletrônicos permite identificar sinais de surtos antes mesmo que os casos sejam confirmados pelos sistemas oficiais. Por exemplo, ao monitorar a menção a "febre" e outros termos associados a doenças respiratórias e infecciosas, os pesquisadores conseguiram captar a sobreposição de surtos de covid-19 (variante Omicron BA.1) e influenza A, que depois foram confirmados por análises laboratoriais e pelos sistemas de vigilância oficiais. Esses achados indicam que padrões de queixas clínicas registrados em tempo real podem ser um indicador útil para antecipar tendências de epidemias emergentes.
Interpretação
Os resultados sugerem que a análise de dados coletados em tempo real nos prontuários eletrônicos pode ser uma ferramenta valiosa para a vigilância epidemiológica, especialmente em situações de emergência de saúde pública. Ao complementar os sistemas tradicionais, que, muitas vezes, enfrentam atrasos na entrada ou na disponibilidade de dados, esse tipo de abordagem pode fornecer informações precoces sobre a circulação de agentes infecciosos e apoiar a tomada de decisões mais rápida por gestores e profissionais de saúde. A integração de fontes de dados clínicas com a vigilância convencional pode melhorar a detecção de surtos e fortalecer a resposta local a epidemias.