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Estadão: Vacinar crianças contra a covid é fundamental
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Estadão: Vacinar crianças contra a covid é fundamental

28.12.2021


Marco Aurélio Sáfadi e Jorge Kalil

Um dos aspectos mais intrigantes da covid-19 consiste no fato de que crianças e adolescentes apresentam menor risco de complicações, hospitalizações e óbitos, comparados com adultos, em particular com os acima de 50 anos. Essa percepção de menor gravidade da doença em crianças, apesar de verdadeira, paradoxalmente ocasionou uma das mais cruéis faces das políticas públicas de combate à pandemia, excluindo as crianças tanto das estratégias prioritárias de vacinação como de terapias medicamentosas que tivessem como objetivo reduzir o risco de complicações da doença.

Infelizmente, se nos detivermos com atenção aos números da covid-19, sem nos distrairmos com o dramático impacto nos adultos, chegaremos à conclusão de que o ônus da doença está muito longe de ser negligenciável em crianças, particularmente no Brasil. Vejamos:

Desde o início da pandemia já foram confirmadas 2.575 mortes e 34.023 hospitalizações causadas pela covid-19 em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, e as crianças de até 11 anos representaram 2/3 desses óbitos e internações. Tanto as taxas de mortalidade como as de letalidade no Brasil são cerca de 5 a 10 vezes maiores que as respectivas taxas em crianças na Europa ou nos Estados Unidos. Some-se a esses números uma outra face da covid-19: a chamada síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica. Trata-se de uma manifestação tardia da infecção pelo Sars-CoV-2, considerada grave, de tratamento hospitalar, que já acometeu 1.412 crianças, com uma idade média de 5 anos e que resultou em 85 mortes, além de sequelas cardiovasculares, neurológicas e respiratórias entre muitas das que sobreviveram.

Não menos importante, sob o pretexto de proteger seus familiares, foi negado às crianças o acesso ao ambiente escolar durante mais de um ano, condenando toda uma geração a consequências dramáticas, que levarão mais de uma década para serem solucionadas.

Nenhuma doença passível de prevenção por vacinas recentemente incluídas no Programa Nacional de Imunizações (meningite meningocócica, diarreia por rotavírus, influenza no ano da pandemia por H1N1, meningite pneumocócica) provocou número igual de mortes em menores de 19 anos ao longo de um ano, como fez a covid-19. Esses números mostram de forma inequívoca a potencial gravidade das consequências dessa doença para as crianças.

Os exitosos resultados dos programas de vacinação em adultos, reduzindo o risco de indivíduos infectados progredirem para as formas graves da doença, foram também já demonstrados nos adolescentes. A efetividade de duas doses da vacina Pfizer contra hospitalização por covid-19 foi de 93% em adolescentes americanos, durante o protagonismo da variante Delta. Nesse estudo, todos os adolescentes com formas críticas de covid-19, internados em UTIs, ou que morreram eram não vacinados.

A extensão de uso da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos é amparada por estudo que mostrou uma eficácia de 90% após duas doses da vacina para prevenção de covid-19 sintomática, antecipando que a proteção contra formas graves e mortes, baseado nas lições aprendidas em outros grupos etários, será no mínimo similar a esses índices.

A confiança na vacinação de crianças ganhou contornos muito sólidos na última semana, quando foram divulgados os dados dos eventos adversos após mais de 7 milhões de doses administradas nos EUA em crianças de 5 a 11 anos. A quase totalidade dos eventos adversos reportados foram classificados como não graves e transitórios, caracterizados basicamente por febre, dor de cabeça, vômitos e inapetência. Houve apenas oito casos de miocardite em mais de 7 milhões de doses administradas (dois casos após a primeira dose e seis após a segunda), todos eles classificados como de evolução clínica favorável.

Importante se faz destacar que os casos de miocardite após a vacina têm sido muito menos graves e menos frequentes do que a miocardite causada pela própria covid-19. Esses dados preliminares mostram, ainda, um risco substancialmente menor desse evento adverso nas crianças comparado com o previamente observado em adolescentes após a vacinação, agregando confiança às análises de risco/benefício da vacinação de crianças.

Em resumo, a menor gravidade da covid-19 em crianças quando comparada com adultos fez com que, infelizmente, nos distraíssemos da sua real carga nesse grupo etário. Ainda é tempo de corrigirmos esse equívoco. Os estudos com a vacina da Pfizer demonstraram que a doença e suas complicações são passíveis de prevenção, inclusive em adolescentes e crianças. Os eventos adversos ocorrem de forma rara e em frequência substancialmente menor que os benefícios da vacinação. A presença de uma variante como a Ômicron, com maior transmissibilidade, torna grupos não vacinados (como crianças) mais fragilizados ao risco de infecção, conforme vem sendo observado em outros países com presença da variante. Neste contexto epidemiológico, estamos convencidos de que ampliar o benefício da vacinação a esse grupo etário é sim uma prioridade.

Marco Aurélio Sáfadi é professor adjunto e diretor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; Jorge Kalil é professor titular de Imunologia Clínica e Alergia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor-presidente do Instituto Todos pela Saúde (ITpS)



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