O 1º Treinamento em Vigilância e Saúde Pública para Jornalistas, promovido pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS), realizou nesta semana sua segunda rodada de aulas, voltada à discussão sobre vigilância genômica, monitoramento de vírus e uso de dados para resposta a emergências em saúde pública.
A primeira aula foi ministrada por Ester Sabino, imunologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com o tema "Para que serve o sequenciamento de agentes infecciosos?".
Ao longo da apresentação, Ester mostrou como o sequenciamento genético tem sido utilizado para compreender a origem, evolução e disseminação de vírus ao redor do mundo. A pesquisadora relembrou exemplos envolvendo HIV, Ebola, Zika e covid-19, destacando como a vigilância genômica contribui para identificar surtos, acompanhar variantes e responder de forma mais rápida a emergências sanitárias.
Entre os casos apresentados, esteve o trabalho realizado durante o início da pandemia de covid-19 no Brasil, quando pesquisadores conseguiram sequenciar o SARS-CoV-2 em cerca de 48 horas após a confirmação do primeiro caso no país. A aula também abordou a identificação de variantes do coronavírus, como a P.1/Gama, detectada em Manaus no fim de 2020.
Ester discutiu ainda os desafios da comunicação científica durante emergências em saúde pública, especialmente diante da velocidade de circulação das informações e da pressão por respostas rápidas. Segundo ela, "a comunicação impacta diretamente na ciência, que precisa dela para ser vista e comentada, para que as pessoas vejam o que está sendo feito". A pesquisadora destacou também que comunicar descobertas científicas exige contextualização, transparência sobre as limitações dos estudos e cuidado para que os achados sejam apresentados na dimensão correta.
Como dados e sequenciamento ajudam a antecipar surtos
A segunda aula foi conduzida por Anderson Brito, infectologista e coordenador científico do ITpS, que apresentou iniciativas desenvolvidas pelo Instituto para transformar dados diagnósticos e genômicos em informações de utilidade pública.
Durante a apresentação, Anderson explicou como diferentes tipos de dados podem ser integrados para monitorar, em tempo quase real, a circulação de vírus respiratórios e arbovírus no Brasil. Entre os projetos do ITpS apresentados estiveram a Rede de Análise de Dados Integrados para Monitoramentos (Radim), a iniciativa Genômica para Vigilância Oportuna de Patógenos (Gevop) e a Rede de Vigilância em Saúde Ampliada (Revisa).
O infectologista destacou que a integração entre dados públicos e privados permite detectar surtos com maior rapidez e antecipar respostas em saúde pública. Esse processo é, inclusive, realizado pelo ITpS por meio do Radim, cujas análises e relatórios podem ser acessados no site do Instituto. Também chamou atenção para o papel do sequenciamento genético na identificação de variantes, no monitoramento da circulação de vírus e na detecção de patógenos que podem escapar dos exames de rotina.
Entre os exemplos apresentados, Anderson mostrou como análises de positividade de exames ajudaram a identificar precocemente surtos recentes de vírus respiratórios no país e detalhou casos detectados por sequenciamento metagenômico, incluindo vírus negligenciados que circulavam silenciosamente fora do radar da vigilância tradicional.
O treinamento segue nas próximas semanas em formato online, reunindo especialistas convidados e jornalistas selecionados para a primeira edição do programa.