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Veja Saúde: Estudar os morcegos pode ajudar a prevenir novas pandemias
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Veja Saúde: Estudar os morcegos pode ajudar a prevenir novas pandemias

28.09.2026

Os morcegos atuam no controle de pragas, na polinização e na dispersão de sementes, entre outros papéis. Esses animais formam um dos grupos de mamíferos mais diversos do planeta, ficando atrás apenas dos roedores em número de espécies, e estão presentes em todos os continentes, exceto na Antártica. Além de sua importância para os ecossistemas, os morcegos também despertam interesse científico por sua relação com diferentes vírus. Algumas espécies podem abrigar uma grande diversidade de patógenos, sem apresentar sintomas na maioria das vezes.


No Brasil existem pelo menos 186 espécies de morcegos descritas, distribuídas em 9 famílias e 68 gêneros, e menos da metade já foi estudada quanto à presença viral, o que expõe a lacuna de conhecimento na área. De forma inédita, pesquisadores da América Latina e da Europa isolaram um Morbillivirus – parente do vírus do sarampo – em morcegos silvestres da região, além de encontrarem vírus semelhantes em saguis no Brasil, com potencial de transmissão entre espécies.


Também no país, um estudo do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), em parceria com a Prefeitura de São Paulo e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) identificou 114 sequências virais em morcegos urbanos, incluindo um filovírus inédito nas Américas, da mesma família do Ebola. Outros trabalhos recentes detectaram novos coronavírus no Brasil e na China, reforçando evidências de que morcegos são hospedeiros de patógenos como ebola, hendra, nipah, MERS e SARS.


Os morcegos possuem um sistema imunológico singular, que permite a coexistência de diversos vírus sem provocar grandes respostas inflamatórias. Essa característica, somada ao metabolismo acelerado e à alta mobilidade, cria condições ideais para a manutenção e disseminação de vírus em grandes áreas. A urbanização e o desmatamento ampliam as interações entre humanos e esses animais, aumentando o risco de novas epidemias.


Além das pesquisas, episódios como um surto na República Democrática do Congo, onde crianças morreram após consumir um morcego infectado, também ilustram o potencial dessas interações para originar doenças de impacto global.


Atualmente, os esforços de vigilância sanitária no Brasil estão concentrados na pecuária, justificados pela relevância econômica do setor e pelo risco de zoonoses como febre aftosa e brucelose. No entanto, os morcegos e outros animais silvestres também desempenham um papel crucial na cadeia epidemiológica, sendo vetores potenciais de doenças que podem afetar humanos e animais domésticos.


A falta de investimentos em pesquisas com esses animais representa uma vulnerabilidade para a saúde pública. No Brasil, a raiva em morcegos é monitorada por órgãos municipais e estaduais de defesa sanitária animal, mas ainda há pouca atenção para a detecção de outros vírus emergentes. 


Aproveitar a cadeia de vigilância da raiva, regulamentada pelo Ministério da Saúde, é um caminho custo-efetivo para detecção precoce de patógenos em morcegos e uma ferramenta essencial na prevenção de futuras epidemias. Técnicas como a análise metagenômica permitem identificar vírus em circulação antes que cheguem a humanos, possibilitando a implementação de estratégias preventivas.


No ano passado, em uma oficina técnica promovida pelo ITpS, em colaboração com a Opas e o Ministério da Saúde, nós discutimos o uso da vigilância em morcegos como estratégia para detecção precoce de patógenos com potencial epidêmico e pandêmico, destacando a importância de fortalecer essa abordagem.


Ampliar a vigilância sobre esses animais não é apenas uma questão científica, é um passo essencial para a saúde pública e para antecipar os desafios sanitários das próximas décadas.



Para a população, a principal recomendação diante do encontro com um morcego é evitar o contato direto. O animal não deve ser tocado ou manipulado, especialmente quando estiver caído, morto ou apresentar comportamento incomum. Nessas situações, a orientação é acionar o serviço de zoonoses ou outro órgão responsável no município para que a ocorrência seja avaliada e o animal, quando necessário, seja recolhido de forma segura. Essas medidas ajudam a proteger as pessoas sem colocar em risco animais que têm papel importante no equilíbrio ambiental.


Anderson Brito

Virologista, bioinformata e coordenador científico no Instituto Todos pela Saúde (ITpS)


Conteúdo disponível no site do Veja Saúde

Instituto Todos pela Saúde (ITpS) Av. Paulista, 1.938 – 16º andar
São Paulo - SP – 01310-942

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